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O Alto Preço de Uma Vida Longa

16 de May de 2011 por Magda de Almeida

Em recente entrevista a um importante jornal brasileiro, um dos papas da nossa medicina, hoje na casa dos 80 anos, desabafou: o problema não é o processo de envelhecimento em si, que a ciência já enfrenta de forma competente. O horror está na rejeição da sociedade, na desvalorização do idoso a partir da própria família, na descrença em nossas competências e possibilidades “. Eu acrescentaria mais um item a esse desabafo: também ao despreparo da grande maioria dos profissionais de saúde para  lidar com os pacientes mais velhos. Esse despreparo vai do descaso puro e simples, facilmente perceptível em qualquer sala de espera de um posto de saúde ou de hospital público, ao equivocado entendimento que o idoso não é capaz de discernir entre um bom e um mau profissional, entre um atendimento médico qualificado e aquele que os manda de volta para casa, sem sequer tocá-lo. Em um país onde a saúde da população nunca foi ( e ainda não é ) prioridade, e onde seus políticos e governantes  preferem a ponte-aérea para tratar de suas mazelas físicas e emocionais a encarar os hospitais de Brasília, criado e sustentado por eles próprios, poucas são as surpresas. 

Uma amiga passou há pouco por uma interessante, mas não menos cruel, experiência. Interessante, porque  acrescentou alguns inesperados dados em sua pesquisa sobre o processo de envelhecimento e o alto preço que os idosos pagam por uma vida mais longa. Cruel, porque ela percebeu com mais nitidez o tamanho da rejeição e seus efeitos colaterais sobre a alma humana. Raquel queria apenas dedicar algumas horas livres de seu tempo e seus conhecimentos ( é professora aposentada ) a quem deles necessitasse. Optou por um trabalho voluntário que envolvesse jovens de comunidades carentes. Procurou algumas Ongs com experiência nessa área e descobriu que estava ” velha demais ” para o trabalho que se propunha fazer. Os jovens, disseram-lhe, preferem lidar com jovens ou, pelo menos, com professores ainda em fase ” produtiva “. A experiência e o bom ensino não lhe serviriam de nada, seu “pique” estaria muito aquém do desejado, para uma clientela ativa e de convívio complexo. Minha amiga entrou na Internet, conversou com Ongs internacionais e hoje vive na Africa, onde se sente realizada e útil e onde encontrou o espaço que procurava. A idade só ajudou.

Sei que esta não é uma questão fácil de ser resolvida a curto e mesmo a médio prazos, principalmente em um país como o Brasil, dono de um imenso tapete sob o qual são varridos os resultados de  todas as nossas incompetências. E sabemos todos que elas não são poucas. O mundo desenvolvido já descobriu que o entendimento sobre o processo de envelhecimento deve começar já nos primeiros anos das faculdades de medicina, algo por aqui praticamente inexistente. Há quem se volte um pouco mais para trás e defenda a ideia que  esse processo de conscientização deve ter início a partir do segundo grau, ou mesmo do ensino fundamental,  aproveitando-se as aulas curriculares de ciência. Nada complicado, não fossem os nossos professores também pouco qualificados para essa tarefa. Portanto, os desafios são grandes, para os que ainda acreditam na força de um trabalho educativo desde cedo. Para os mais pessimistas, ou realistas, tudo isso não passa de uma utopia. Em sua última pesquisa, o IBGE fez-se claro: o Brasil envelhece a olhos vistos, não se preparou para esta questão e nem parece muito entusiasmado com a ideia, apesar de ótimas iniciativas aqui e ali. Pelo andar dessa carruagem, nem a sociedade nem nossos governantes, em todos os níveis, querem falar sobre isso. ” Vamos pular essa parte…” parece ser o pensamento único nos gabinetes de Brasília. Com um enredo desses, o filme não pode terminar bem.    

Assim como a Pediatria parece ser, hoje, uma especialidade em extinção no Brasil, a Geriatria também corre o risco de morrer de inanição. Há mais vagas que alunos nas Residências  espalhadas por todo o país. Outras especialidades, principalmente aquelas que oferecem mais lucratividade, vêm ocupando um espaço maior. Isso talvez explique a falta de conhecimento e habilidade dos profissionais de saúde para lidar com os pacientes mais velhos. Raros são, por exemplo, os psicólogos especializados no atendimento às demandas emocionais da chamada terceira idade, e que são muitas. Não é fácil envelhecer por aqui. A sensação de desamparo, até dentro do próprio ambiente familiar, é permanente, segundo levantamentos já realizados no país. Além de ter de enfrentar a natural deterioração do corpo, o idoso sofre pela rejeição familiar e social, que mata mais do que qualquer doença em si, e pela falta de políticas públicas voltadas para ele.   

As estatísticas oficiais também apontam para um enorme percentual de famílias hoje sustentadas pelos seus idosos. Nas grandes capitais, esse percentual já chega à casa dos 38% da população. Um número considerável. Os de nível superior, pela própria qualificação profissional seguem trabalhando, mesmo depois da aposentadoria. Geralmente, por conta própria, já que o mercado ainda resiste a absorvê-los. Nos países desenvolvidos,  onde a autoestima dos idosos é  suficientemente alta para mantê-los produtivos e, por isso mesmo, acolhidos, as empresas abrem-se para este segmento da sociedade, hoje com um grande poder de compra. No Brasil, uma das grandes demandas neste segmento é a do cuidador de idosos, uma figura física e jurídica que só agora começa a dar os seus primeiros passos na sociedade. Não é um profissional barato, o que o torna acessível apenas aos que podem pagá-lo. Antigamente, sempre podia se encontrar nas famílias um parente ou vizinho a quem se podia entregar a tarefa de cuidar dos idosos incapacitados, uma prática muito comum nas classes mais pobres. Essa figura desapareceu com o crescimento do mercado de trabalho. Hoje, a maior parte dos membros de uma família, senão todos,  passa a maior parte do dia fora de casa, em múltiplas atividades.  E o que  fazem nossos governantes para minimizar essa grave questão? Por onde andarão as tão prometidas políticas públicas voltadas para este segmento da sociedade, cada vez mais expressivo?   

O envelhecer transformou-se em um problema adicional de extrema gravidade e poucos são os que, dentro dos governos e da própria sociedade, dão-se conta disso. Como bancar um cuidador em horário integral ou mesmo parcial, se uma imensa parcela da população sequer pode arcar com os custos dos medicamentos? Como prepará-los adequadamente? Na falta de recursos para tal, a quem as famílias podem recorrer para cuidar daquele avô ou avó com Alzheimer, por exemplo? Estes, nem nossos incompetentes asilos os querem.  Ou com um AVC severo e incapacitante? Nossos governantes fogem dessas perguntas. Idem, nossa medicina. E nossos políticos? O tema já ganhou muita eleição. Fez até um governador. Mas discursos e efetiva prática são incompatíveis no Brasil, que envelhece, mas tem vergonha de assumir. 

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Sobre dores, perdas e luto

18 de October de 2010 por Magda de Almeida

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Leio nas páginas amarelas de  Veja da semana passada ( edição  2185 ), a entrevista da atriz Cissa Guimarães, ainda a propósito da trágica morte de seu filho Rafael. Leio e releio seu impressionante relato sobre os difíceis momentos que passou e sua luta para sobreviver a tudo aquilo, aqui incluído o deplorável comportamento do pai do responsável pelo atropelamento, ao oferecer propina para que a polícia não registrasse o acidente da forma como ele, realmente, ocorreu. Fiquei especialmente impressionada pela forma como Cissa encarou todo aquele tormento, retornando às suas atividades duas semanas depois para ” continuar de pé ” e tocar a vida. Injustamente, muita gente a censurou por isso. É sobre esse posicionamento que quero falar. O luto é cultural, ou seja, cada cultura o vive de diferentes formas, todas respeitáveis, por mais que as achemos ” estranhas ” aos nossos usos e costumes. Há não muito tempo, o mundo ocidental vestia-se de preto nos velórios e enterros. As mulheres, principalmente nos países colonizados por portuguêses e espanhóis, levavam meses e até anos, para tirá-lo. Mesmo que quisessem tê-lo feito antes, a vizinhança e os parentes vigiavam e pressionavam a manter a tradição. 

Lembro do meu espanto ( faz tempo que não me espanto com mais nada ) quando soube que, em Nazaré, então um pequeno porto pesqueiro português, as mulheres cobriam-se de preto da cabeça aos pés ao acompanharem seus maridos que partiam à caça ao bacalhau no Mar do Norte. Pelo sim ou pelo não, já iam de preto, já que nem todos voltavam.  O mesmo vestuário se repetia quando do retorno deles à terra firme. Meu tio-avô era um desses portuguêses.  Nunca retornou, tragado que foi por uma imensa onda que varreu o tombadilho de seu barco-pesqueiro. Minha tia estava grávida, não tirou o luto nem na hora do parto. E de preto viveu até morrer, aos 98 anos. Os tempos mudaram, cidades se modernizaram e nem as viúvas e nem os pescadores são mais os mesmos. Convenceram-se que o luto é mais sentimento do que vestuário. Mas algumas diferenças permanecem e elas falam muito da diversidade cultural até dentro de uma mesma cidade. Em alguns países, como em certas cidades norte-americanas, um velório  chega a ser um acontecimento social. Os familiares do morto vestem suas melhores roupas ou mandam confeccioná-las especialmente para a ocasião. O preto ainda prevalece, mas apenas por um ou dois dias, entre os  mais próximos. Mas terno e gravata é exigido dos demais convivas. Sim, porque, para as elites americanas e européias, velório é coisa para convidados. Bebe-se e come-se como num coquetel convencional. Quando não se brinda às qualidades do falecido, por mais defeitos que tenha tido.Quando era repórter do JB, do Jornal da Tarde e do Estadão, cobri centenas de enterros e velórios de celebridades e autoridades civis e militares da época. Dava para escrever um livro. Não posso deixar de registrar que, naqueles tempos ( décadas de 60, 70, 80 e parte de 90 ), até velório e enterro de bandido famoso merecia uma ampla reportagem dos jornais onde trabalhei. Os bandidos eram, geralmente, enterrados no cemitério de Irajá, subúrbio carioca, um dos mais desassistidos pelo poder público, como de resto era ( e ainda é ) a grande maioria dos bairros das zonas norte e oeste do Rio de Janeiro. Lá estão enterrados alguns dos mais célebres criminosos da cidade. Cobri esses velórios e enterros era sempre um risco.  A bandidagem inteira da região comparecia, sob os olhares atentos de policiais à paisana, que dificilmente os pegavam. Eles aproveitavam o clima emotivo do momento  para se misturar aos presentes, chorar um pouquinho nas sombras,  depois pular sobre as sepulturas e desaparecer entre elas, não raro sob a proteção dos familiares do morto. O ” traje ” oficial nessas cerimônias era bermuda e chinelo de dedo, independentemente da relação que os convivas tivessem com o falecido. Quando Airton Senna morreu, até seus fãs demonstraram um certo constrangimento em se juntar a todos aqueles senhores de terno e gravata, muitos europeus, que deixaram seus países de origem para as últimas homenagens ao herói brasileiro. Ninguém me diga que não se emocionou às lágrimas diante do caixão carregado por aqueles homens de preto que representavam o que a corrida de Formula 1 tinha de melhor. O cemitério da Consolação, naquele inesquecível dia, não teve lugar para bermuda e chinelo de dedo, o traje quase oficial do brasileiro, algo impensável na grande maioria do mundo ocidental. O mundo oriental é um capítulo à parte, falar de seus usos e costumes nesse campo tomaria muito tempo de vocês. Basta dizer que, em alguns países, o grito desesperado sobre o caixão é quase uma palavra de ordem. Não fica bem o silêncio compugido. Na India, para o povãode lá,  é quase um tempo de celebração. Ao contrário do que ainda hoje é costume em outras países, o branco é a ” cor ” das cerimônias fúnebres. Há uma vida eterna reservada para o ente querido, ali ele viverá, provavelmente, mais feliz do que os que aqui ficaram.Cobri muitos enterros e velórios de artistas famosos. O que mais me impressionou no velório do cantor e compositor Ataulfo Alves, no cemitério do Catumbi, no Rio, foi o choro avassalador da cantora Clara Nunes, sua grande amiga e pupila. Quase chorei junto, tão emocionada fiquei com ao vê-la horas a fio debruçada sobre o caixão, negando-se a dele se afastar ao menos por alguns momentos. Anos mais tarde, era ela que estaria sendo velada. Desta vez, quem chorou fui eu.  A minha lista é enorme e inclui Dalva de Oliveira, Elizete Cardoso, Chacrinha, Dina Sfat, Luz Del Fuego ( ou o que sobrou dela, depois que a encontraram no mar, já em grande estado de decomposição ),  Moreira da Silva, entre muitos e muitos outros. Em todos eles, o povo compareceu em massa e em traje típico - bermuda e chinelo de dedo. Das autoridades, o velório e o enterro do ex-presidente Juscelino Kubitcheck, principalmente nas circunstâncias em que sua morte ocorreu, foi especialmente emocionante para todos que acorreram ao prédio da antiga Revista Manchete, na Praia do Russel, no Rio, onde se realizava a cerimônia. Foi um dos raros momentos de minha vida em que precisei me lembrar a todo instante que ali estava como profissional e como tal deveria me comportar. Mas foi difícil. Naquele especial momento da vida nacional, elite e povo vindo dos mais distantes lugares do Estado e do país, se misturaram. Bermudas, ternos e vestidos nada populares deram-se as mãos e juntos rezaram por aquele que nunca deixou de ser o Presidente deles. Cobri também os enterros e velórios dos ex-presidentes militares Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo. Cumprindo à risca o modelo militar de sepultamento, foram cerimônias formais, ainda que embuídas de muita emoção contida. O luto se revelava de outra forma. O terno preto dava lugar ao fardamento, o silêncio ao choro. O tradicional toque de recolher a relembrar que ali estava sendo enterrado, sobretudo, um soldado. Não havia lugar para informalidades, bermudas e chinelo de dedo. Cissa tem razão, quando diz que precisou voltar à sua normalidade para continuar vivendo. Ela talvez nunca mais volte a ser feliz. Mas vestiu seu luto da forma como achou que seria melhor para ela, para seus outros filhos e para a legião de amigos e fãs, que a querem por inteira e de pé. E àqueles que a censuraram por voltar ao trabalho, quando a queriam atirada e em desespero pelos cantos, ela responde: ” O trabalho dá sentido à vida.´” É a sua defesa para não enlouquecer de dor. É o seu luto.  

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Bullying ou trabalhando com o inimigo

2 de June de 2010 por Magda de Almeida

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Hesitei por alguns momentos, antes de sentar neste computador e escrever sobre o bullying, tema muito em moda ultimamente, embora prática comum desde que descemos das árvores e fomos à luta. Primeiro, porque o assunto me traz lembranças que gostaria de ver esquecidas e trancadas no meu velho baú de memórias pouco agradáveis. Segundo, porque achei que poderia cair no repetitivo. Ultimamente, muito se tem falado a respeito. Não há jornal, revista, programas de TV, esquinas e mesas de botequim onde o assunto não esteja, neste exato momento, sendo virado do avesso. E foi justamente esse vasto repertório de leituras que fez a minha ficha cair. Tudo e todos só falam nas perversidades que experimentamos em nosso cotidiano escolar, época importante, mas um limitado tempo de nossas vidas. É difícil esquecer os apelidos e as  brincadeiras  infames que nos desqualificavam publicamente e jogavam nossa já pobre autoestima chão abaixo. Nem toda humilhação é superável, não importa os anos de divã. Muitos carregam sequelas emocionais graves vida afora, com poucas chances para uma vida plena e saudável. Mas, parece que, desta vez, sociólogos, psicólogos, psicanalistas, educadores de todos os matizes acordaram, finalmente, para o tema e agora debruçam-se sobre ele e suas consequências. Pelo menos todos são unânimes em afirmar o que as vítimas já intuíam: não adianta culpar o coleguinha. Todos são, ao mesmo tempo, culpados e  cúmplices - escolas, pais, governo. Omitiram-se e omitem-se para não sair da zona de conforto e enfrentar esta dura realidade. As razões dessa ausência são várias, mas todas caminham juntas: despreparo pessoal e profissional dos professores para lidar com o problema;  visão atrasada do verdadeiro papel da escola na vida do aluno; medo de perder aqueles alunos agressivos, mas ricos, que garantem a folha de pagamento dos professores e, não menos importante, não contam com o apoio da própria comunidade acadêmica para agir com rigor. Não devemos esquecer que professor também compete com professor. E no mesmo espaço educativo. ;Mas há um bullying do qual poucos falam: o do escritório, da fábrica, do trabalho, enfim. Já deram um nome pra ele: bullying corporativo. Igualmente cruel e desagregador, vem a reboque do outro, segundo especialistas. Ou seja, quem foi vilão no colégio, provavelmente, também será no trabalho. É, também, uma questão de caráter, de formação familiar, de valores. Há alguns anos, coube a uma renomada e experiente psicanalista francesa, Marie France Hirigoyen, mexer um pouco mais nesta colmeia e alertar o mundo para algo que lotava seu consultório e a deixava  perplexa, diante da gravidade do que via e ouvia de seus pacientes, jovens e veteranos executivos franceses de ambos os sexos, sua principal clientela.  De bullying nas escolas já estava escolada. Nem ela escapara. Resolveu estudar o tema mais a fundo. Leu muito, ouviu muito, aprendeu muito. Constatou que família e escola tinham um  importante papel nessa história, havia, portanto, muito a fazer neste campo minado. A perversa falta de  vontade política para reconhecer que este é um problema de todos e não apenas de um punhado de adolescentes não lhe passou despercebida. 


Mas, o que estava mais próximo dela de uns anos para cá mudou sua vida e alargou suas perspectivas. Marie France conviveu, através de seus pacientes, com uma outra realidade: o lado mais cruel do ser humano não conhecia mesmo limites e o bulling escolar reproduzia-se, com a mesma intensidade, no ambiente de trabalho. Nascia o bulling corporativo. E não se limitava ao antigo e consentido assedio sexual, responsável por tantas tragédias familiares e pessoais. O bulling corporativo destruía carreiras, corações e mentes, não escolhia condição social, racial, cultural ou terrritorial. Até os países com uma legislação trabalhista mais eficiente e protetora pouco faziam para minimizar o sofrimento psicológico dentro de uma empresa. E foi ouvindo e vendo a tragédia emocional de seus pacientes que ela descobriu o quanto o mundo corporativo podia se tornar uma atividade penosa, áspera, pesada de suportar.   

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Quando os Homens Choram

2 de May de 2010 por Magda de Almeida



Os homens estão, finalmente, derramando suas lágrimas. Chorando pra fora, sem falsa vergonha, sem medo. Quem não se emocionou com as recentes lágrimas de Romário ao falar de suas dores emocionais, idem o imperador Adriano, igualzinho o Presidente Lula, ao referir-se à morte de sua primeira mulher, por falta de assistência médica adequada durante o parto? Minha surpresa foi tão grande que me perguntei: ” Será tão raro, assim, ver um homem chorar em público num mundo ainda tão machista”? Fui conferir. E descobri que há uma luz no final desse túnel emocional. A Jung Foundation for Analytical Psichology, com sede em Nova Iorque, realizou uma longa  pesquisa sobre os homens e suas emoções, acompanhando, por mais de 10 anos, cerca de 2 mil varões, de 25 a 60 anos de idade, dentro de diferentes segmentos sociais e culturais, nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina. Os resultados surpreenderam até os mais céticos: a alma masculina está se feminilizando, no sentido de se mostrar mais sensível a um amor perdido, uma paixão não correspondida, lembranças de momentos felizes e até de tragédias pessoais. O que antes era engolido, agora escorre cara abaixo. Não importa a patente.

 

Há séculos, o mundo se auto-observa através de estereótipos: os norte-americanos são pragmáticos. Chorar não é com eles, muito menos em público. Os europeus, principalmente os alemães, seriam frios e duros, até com eles mesmos. Os franceses? Irônicos e arrogantes pela própria natureza. Italianos tem sangue quente, são barulhentos, destemperados; árabes não choram, mas como gritam… E os latino-americanos? Ah! Essa turma não existe…São superificiais, não levam nada a sério, perdem um amor aqui, conquistam outro na esquina mais próxima. Esquentar a cabeça? “Tô fora.” E, assim, vão se desenhando, equivocadamente, os perfis culturais e sociais da humanidade.

 

Mas a pesquisa da Jung Foundation descobriu o que até as nossas avós já sabiam: as aparências enganam sim. E muito. Talvez sejam as atrocidades do homem contra o homem, hoje fartamente mostradas, em tempo real e em seus mínimos detalhes, pela mídia e pelo cinema, a grande responsável por esse súbito não dá mais pra segurar. Há tempos, a televisão mostrou um soldado americano em prantos diante do corpo despedaçado de uma criança, vítima de um carro-bomba. Foi um espanto…menos para o rapaz, que não deveria ter mais de 18 anos. Sua explicação foi também comovente: ” Sou filho dessa época, mas sou, também, filho de um pai e de uma mãe que me ensinaram  a cultivar a compaixão, mesmo pelo inimigo.” O jogador Adriano, aquele homenzarrão de quase dois metros de altura que encanta multidões e as mulheres, não escondeu suas lágrimas por ” amar demais “. Por que duvidarmos dele? Os imperadores também choram, a História é testemunha. Há alguns anos, o cantor Roberto Carlos comoveu o país com suas lágrimas, ao longo da agonia de sua falecida mulher. O Brasil inteiro chorou com ele.

 

Os homens ouvidos pela pesquisa da Jung Foundation, principalmente os que se situam na faixa entre os 40 e os 50 anos, reconheceram que estão “aprendendo”  a se soltar. Já os que têm entre 21  e 30 anos julgam-se mais resolvidos nesse sentido, ou seja, chorar em público, de alegria ou de tristeza, não é mais um problema para eles. Se for para chorar,  choram mesmo. Acima dos 70 anos, entretanto, a lágrima é livre, até por ser esta uma idade em que a queda hormonal torna o homem mais vulnerável às emoções da vida. Entre os 50 e os 70 é que chorar em público ainda é um quase tabu. Os homens nessa faixa de idade  ainda têm muitas dificuldades para exteriorizar suas emoções. Preferem ocultá-las, embora seja uma tarefa para a qual nem todos demonstram, digamos, um certo  talento. Segurar o grito ou o choro não é nada fácil. A pesquisa, certamente, não ouviu os homens que pertencem à realeza, onde os códigos e os protocolos seguem outros caminhos, embora não sejam menos humanos que os demais. Alguém viu o Príncipe Charles e seus filhos chorando durante o velório e o funeral da Princesa Diana? Não. Mas hoje se sabe que os três cederam às suas emoções na intimidade, os meninos principalmente. Mas em público, a ordem real era manter os olhos secos. Os homens  de sangue azul, entretanto, não foram ouvidos pela pesquisa, mesmo porque eles são um capítulo à parte na história da humanidade.

 

Curiosa é a reação do homem diante dos fatos da vida que mexem mais com suas emoções. Em relação às mulheres, por exemplo, as respostas foram diferentes em diferentes países: os europeus não parecem encontrar qualquer dificuldade em dizer a uma mulher  que a ama e que sentirá muita a sua a falta, em caso de afastamento por um eventual divórcio ou  falecimento. Os mais jovens revelaram que já choraram na frente de suas namoradas e não sentiram vergonha por isso. Os norte-americanos, muito influenciados pela descendência bem diversificada e pela cultura pouco homogênea, reagiram de forma também diferenciada. Mas já não se constrangem ao acordar e encontrar, do outro lado do espelho, um homem de olhos vermelhos de tanto chorar por um amor que se foi. Os anglos-saxões, ao contrário, confessam-se mais contidos. Preferem demonstrar seus sentimentos através de gestos ou de um tom de voz ” apropriado “, ainda que, horas após a perda, corram para o bar mais próximo onde bebem todas. Já os latinos na faixa entre 35 e 45 anos garantem ( não sei como aferir isso ) que sabem dissimular ” muito bem “  seus sentimentos. Ainda que procurando consolo para seus desencantos  em outros braços e abraços, a lembrança da mulher amada perdura por muito tempo. E não se constrangem em chorar diante dos amigos pela frustração do que poderia ter sido e não foi.

 

Coordenadora da pesquisa, a Dra. Hellen Hoolferd acha que os homens estão, realmente, mudando a maneira de lidar com suas próprias emoções. Embora reconheça que isso depende muito da cultura onde  estão inseridos, ela considera ” notável ” esse amadurecimento, essa ” feminilização “, já que, até bem pouco tempo, chorar era visto como “coisa de mulher “. Acredito que nos rincões desse mundo afora ainda é. Afinal, desde crianças, os meninos que choram, no particular ou no público, sempre foram violentamente reprimidos por seus pais e pelas sociedades em geral. Esses códigos permanem em muitas culturas ao redor do mundo. Ficar triste, ainda pode. Chorar, jamais. Por isso, a humanidade está cheia de homens que, por medo do ridículo, choram pra dentro, não exteriorizam suas dores e seus amores. Calam-se e enchem os consultórios dos cardiologistas em busca de remédios para dores que são menos do coração e mais da alma.

 

A pesquisa da Jung Foudation não é conclusiva, mas oferece novos caminhos para estudos mais profundos sobre as mudanças comportamentais do homem neste terceiro milênio.  O que parece claro é que o tal homem moderno é, também, resultado desse mundo real que entra em nossas vidas através da mídia, principalmente da mídia eletrônica, que nos permite assistir às atrocidades humanas em tempo real. Violência urbana; guerras que parecem não ter fim; revolta dos socialmente excluídos, que redundam em matanças generalizadas; a banalidade do mal, enfim, tudo isso está mexendo com as emoções do universo masculino. Os norte-americanos veem pela televisão as lágrimas de seus filhos. Ontem no Vietnã, hoje no Iraque e no Afganistão, onde morrem às pencas. E, garantem os pesquisadores, nem os maridos traídos ocultam mais suas decepções. Choram em casa e nos tribunais.

 

Mudar, portanto, não é só uma questão cultural.  Mudar é transformar-se interiormente, e isso é um processo individual e não coletivo. Quando um homem chora, se levarmos em conta a cultura que forjou o universo masculino em todo o mundo, ele não está somente expondo sua fragilidade diante de um momento muito especial para ele. Está  dando um recado, passando uma mensagem, mostrando que, apesar dos conceitos e preconceitos que o moldaram como macho, está conseguindo reencontrar-se consigo mesmo. Hoje, os homens também choram. Por que não?

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A Função Social das Amantes

4 de March de 2010 por Magda de Almeida

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Pois é. Os jornais impressos e online mexeram num verdadeiro vespeiro quando noticiaram, recentemente, o resultado de uma pesquisa realizada na Inglaterra  que é categórica, embora eu tenha lá as minhas dúvidas em relação a tudo que é ” categórico ” : os homens que traem suas mulheres ou namoradas tendem a ter QI mais baixo. Seriam, portanto, pouco ou nada inteligentes. O estudo foi publicado na renomada revista Social Psycology Quartely. O autor da pesquisa é o especialista em psicologia evolutiva da London School of Economics, Satoshi Kanazawa, para quem a fidelidade masculina seria um comportamento da contínua evolução da espécie humana. Os homens fiéis seriam superiores, porque tiveram a coragem de romper com o estabelecido ( a costumeira traição ) e os dogmas de sua cultura. Portanto,  só humanos inteligentes fazem isso. Ele joga por terra a velha tese que o homem trai porque esta é uma exigência biológica e parece convencido que o traidor é, acima de tudo, um bobo. Para ele, a poligamia e a traição masculina ( ele não fala na traição feminina, tão em moda hoje em dia ) estariam com seus dias contados. Pode ser. Vocês acreditam? A mente humana é por  demais complexa para aceitarmos, sem nenhuma análise mais profunda, essa novidade sobre o comportamento humano.  Kanasawa parece desconhecer o “processo evolutivo” dos latinos e dos árabes ( a pesquisa não foi tão longe ), o que, provavelmente, o impediu de pensar nas culturas de algumas regiões do planeta. Os árabes, por exemplo,  podem ter até quatro mulheres de uma vez só. Sem culpa, porque a  lei garante e a cultura local idem. Já no Brasil, por exemplo, a lei ( oficialmente ) não permite o adultério, mas quem precisa de permissão para fazer o que bem entende neste país?

 

Essa pesquisa me fez lembrar de uma outra, posteriormente transformada no livro A Função Social das Amantes ( Editora Autêntica ) - de grande sucesso nos meios acadêmicos na década de 90 - liderada pela socióloga mineira Agenita Ameno, da Universidade Federal de Minas Gerais. Ela mergulhou fundo nas relações extraconjugais e, baseando-se em pesquisas de campo, depoimentos a nível nacional e uma vasta bibliografia, fez uma radiografia do triângulo amoroso e seu papel na preservação do casamento como instituição monogâmica tradicional. Foram entrevistadas homens casados há, pelo menos, cinco anos, e homens e mulheres que assumiram serem amantes de homens e mulheres casados. O universo social escolhido foi de brasileiros de classe média, escolaridade secundária, com idade entre 25 e 55 anos.

 

Dos entrevistados, 40% confessaram manter ou já haver mantido relações extraconjugais durante algum tempo. Destes, 40% são homens, o que a fez concluir que ainda predomina no Brasil a amante como um dos vértices do triângulo. Muitos disseram que traíam por se sentirem fisicamente atraídos pela amante. Ao contrário dos homens, as mulheres não manifestaram nenhum sentimento de culpa ao dizer que traíam porque eram traídas. Só por isso? Não. Havia nesse espaço traições por interesse financeiro, por amor intenso pelo outro e por medo da solidão, a tal solidão da mulher casada, talvez a pior de todas. Só ouve uma unanimidade, um sonoro ” não “ , quando perguntados se perdoariam o parceiro traidor. E quem nunca traiu? Parece incrível, mas a pesquisa encontrou alguns. E por que não traíram? Ninguém escondeu: ” Por falta de oportunidade “- disseram os homens. ” Por falta de coragem ” - afirmaram as mulheres. Mas a vontade existiu, de ambos os lados.

 

Tem mais. O estudo mineiro descobriu que o grande medo das mulheres que se relacionam com homens casados é perder seus amantes para as esposas legítimas, caso estas descubram a relação extraconjugal dos maridos ( nem todas pedem o divórcio ). E o que mais sonham? Serem legalmente assumidas por uma eventual separação ou pela viuvez, o que nem sempre acontece. Também não esconderam que a maior frustração é não fazer parte da vida social de seus amantes, serem figuras invisíveis, clandestinas, num mundo que, acham, deveria ser compartilhado. O casamento com o amante lhes traria a segurança e o respeito social com que sempre sonharam. Querem sair das sombras. Os pesquisadores encontraram,  também, aquelas que resolveram engravidar na certeza que o golpe da barriga ajudaria o amante a sair mais rápido de  casa. Mas o que a nossa realidade é justamente o contrário: raramente o homem sai de casa por esse motivo. Esse tipo de mulher ainda corre o risco do abandono, porque um filho no meio do caminho é a última coisa que o amado queria dessa relação. Talvez aqui se encaixe a pesquisa de Kanasawa. O golpe da barriga, realmente, há muito tempo deixou de funcionar como método de pressão e qualquer tentativa nesse sentido não é mais considerada ” uma prática inteligente “, pelo menos enquanto a esposa legítima estiver no comando da situação.

 

Isso parece claro na pesquisa de Agenita Ameno. A maioria dos homens entrevistados ( 92% ) que assumiu ter uma amante, garantiu que ” jamais ” se divorciaria de suas esposas para viver com a outra. E por várias razões. Divórcio custa caro e ainda provoca uma grande queda no padrão de vida do homem de classe média.  Além disso, lidar  com  sentimentos de culpa, sem tranformá-los numa tortura permante, é desafio para poucos. Pior, alegam todo, os filhos sempre ficam a favor da mãe, com raras exceções. São os inimigos que nenhum pai quer carregar pela vida afora. Ou seja, o preço a pagar por uma aventura fugaz é alto demais para o comum dos mortais, até porque eles acabam descobrindo que a paixão que um dia os ligou à amante, tem prazo de validade. Com o tempo, o casal conflitado começa a apresentar os mesmos estresses que tinham em suas respectivas casas. Seria, portanto, trocar o seis pelo meia dúzia. Isso talvez explique porque de amantes arrependidos o mundo anda cheio. 

 

Uma questão importante levantada pelo estudo diz respeito à insatisfação sexual no casamento. Todos os homens ouvidos foram unânimes em confessar que traíram ” pelo fraco desempenho sexual de suas esposas “, principalmente após o nascimento dos filhos. Aqui temos um outro problema. A não ser os médicos e especialistas na área, nenhum homem conhece o mecanismo de funcionamento hormonal de uma mulher, em qualquer situação. TPM, por exemplo, é algo que só recentemente começou a ser visto como um problema real de saúde, assim como a menopausa. Enquanto a mulher está amamentando, seus hormônios femininos se concentram nas mamas, a fim de produzir a maior quantidade de leite possível, alimento principal dos bebês. É natural que a sua libido esteja perto do zero, em muitos casos. Mas quantos homens ( e quantas mulheres ) sabem disso? Trata-se de um momento delicado para ambos, um período que não teria que ser, necessariamente, tão estressante como é, se a informação circulasse mais e melhor entre o casal. Aqui, culpo também os obstetras, que passam batido nesse aspecto.

 

Amante dá prazo para o sim ou o não? A pesquisa constatou que sim. Ela costuma dar um prazo de dois anos para o parceiro deixar a família e assumi-la. Sabe aquela velha desculpa ” minha mulher está muito doente” ou ” deixa meus filhos cresceram, eles vão entender melhor …” continua sendo a justificativa mais usada pelos homens para não deixar a família. Das 135 amantes entrevistadas, apenas seis perceberam a sua real situação e desfizeram a relação. Embora essa pesquisa não seja recente, feita hoje não traria um resultado muito longe dessa realidade, apesar do avanço das mulheres na conquista de mais espaço social, consequentemente, de mais respeitabilidade. Mas aquela mulher dependente da opinião alheia, vulnerável à pressão familiar, pouco ou medianamente escolarizada, portanto, economicamente atrelada ao salário do marido, dificilmente pulará a cerca. Sabe o que a espera, principalmente se mora nos rincões do país ou na periferia das grandes cidades nordestinas, onde a liberdade feminina ainda é uma utopia. 

 

Qual a conclusão final da ampla pesquisa realizada pela socióloga Agenita Ameno e seu grupo?  Se por um lado, ser amante ou possuir amantes é estimulante e até, juram alguns, mantem o casamento tradicional, pode representar, também, um  inferno em vida…para ambos. Portanto, recomendar o triângulo amoroso seria o mesmo que recomendar a uma criança gangorrar sobre um abismo. E transformar os amantes em remédio para salvar um casamento moribundo é viver, permanentemente, sob um doloroso e perigoso conflito interno.  Isso pode até ocorrer em alguns raríssimos casos, mas a um custo emocional tão grande que, quando os sentimentos começam a esfriar entre parceiros e amantes, um deles ( ou os dois ) já se questiona se estaria valendo a pena tanto sofrimento.

 

 

 

 

 

 

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Tão perto…tão longe

31 de December de 2009 por Magda de Almeida

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Quem frequenta churrascarias, onde muitas famílias costumam ir aos domingos e datas festivas, provavelmente já reparou em uma velha cena: o casal chega, geralmente acompanhado dos filhos e dos sogros. Sentam-se todos à mesa e iniciam a refeição. “Uma família tranquila”- pensamos. Os mais idosos tomam a iniciativa de puxar conversa, os filhos curtem o ambiente, a comida farta, mas… e o casal? Já repararam como muitos se comportam? Mal se olham, mal se falam, muito menos se tocam. O silêncio entre eles só é interrompido quando o garçom insiste: ” Mais batata frita…?” Na volta pra casa, apenas os avós e seus netos conversam entre si. Uma cena comum, quem nunca a vivenciou na própria família ou na alheia? Dá até para adivinhar o que ocorre no retorno ao sacrosanto lar. Não é difícil concluir que, no cotidiano desse casal que tomei como símbolo, tudo vira pretexto para a troca de farpas mal disfarçadas, que pode ir do ronco até a maneira como um dos dois passa a manteiga no pão. Ninguém precisa fazer doutorado em psicologia para perceber que casamentos assim configurados vão mal. Muito mal, porque ambos não conseguem mais disfarçar, nem na intimidade, a apatia, o desligamento, o tédio que os cerca e os fragmenta aos poucos. Cada um recolhido em seu conflitado mundo, rezando para que alguma coisa aconteça que os livre daquele impasse, daquelas amarras intermináveis.

Acho que ninguém mais duvida que a liberdade é fundamental para que possamos escolher os nossos caminhos. Liberdade essa que, com certeza, fica muito comprometida quando o medo prevalece e nos impede de arriscar, de voltar a experimentar aquelas fortes, inesquecíveis e deliciosas emoções da juventude; o receio paralizante de se arrepender e não encontrar mais o caminho de volta; da rejeição social e profissional; sobretudo, medo de amar novamente, quem sabe, desta vez, a pessoa certa. E vamos deixando a vida nos levar, como preconiza uma música de grande sucesso. Ficamos no nosso confortável ( será? ) cantinho, à espera desse príncipe idealizado. Mas é nesse deixo a vida me levar que, na verdade, se escondem os sentimentos que teimamos em esconder; as lágrimas que teimamos em segurar, por vergonha e orgulho bobo; o grito que morreu na garganta e, sobretudo, a insegurança ( sempre ela ), que nos aprisiona e impede que os nossos sonhos sejam, efetivamente, sonhados. Inútil disfarçar.

Não se vai levando a vida impunemente e quem vai levando sabe disso. A fatura é alta por não assumirmos aquelas emoções mais profundas que tanto nos angustiam, estejamos em casa, no trabalho ou na rua, sabem os mal humorados crônicos, aqueles que adoram exibir uma falsa impessoalidade com os demais; os que gostam de assumir atitudes professorais e falsamente superiores diante dos mais humildes, enfim, os arrogantes para consumo externo, o posso tudo, o sei tudo, não me arrependo de nada, tão comum nos dias de hoje, posturas que nada mais são do que filhas direta da insegurança. E não vamos esquecer das indisposições gástricas, das dores na coluna, da coceira interminável na sola do pé, da voz rascante pela energia represada. Este é o preço que pagamos por ficarmos com quem já não queremos, por não termos coragem de assumir que acabou o que um dia pareceu bom, mas que o tempo revelou insatisfatório para nossa felicidade.

Em nossa cultura, o homem ainda dispõe de mecanismos de escape que permitem a ele manter um casamento já falido. Afinal, todos nós sabemos que essa instituição só se sustenta porque, à sua retaguarda, está a garota de programa e/ou a amante, que a sociedade tolera e até incentiva de alguma forma. Além disso, casamento virou um investimento econômico de tão alto risco, que o homem pensa duas vezes antes de procurar o advogado. A conquista de uma eventual liberdade e a existência de uma nova paixão avassaladora, não compensam, para muitos, as perdas de status social e econômico que, fatalmente, virá com o divórcio, pelo menos para os comuns dos mortais. Se a “outra” não reclama, não exige, não faz birra, tudo bem. Uma boa estratégia, muitas mentiras e dissimulações e tudo se acomoda. É quase um pensamento único no mundo masculino, em qualquer lugar do mundo. As estantes acadêmicas estão recheadas de teses a respeito.

Mas e a mulher, como ela interage com o “outro”, quando ele existe e quando o o casamento, bem ou mal, ainda é um porto-seguro? Segundo estatísticas acadêmicas confiáveis, no Brasil é a mulher quem costuma tomar a iniciativa de pedir a separação. Seu limite parece ser mais curto que o do homem. Suas frustrações já tem prazo de validade e as Varas de Família parecem confirmar isso. Os mesmos estudos garantem que o que se convencionou chamar de ” mulher moderna ” não alimenta mais os escrúpulos e as amarras religiosas e culturais de sua mãe e avó. As revistas femininas, por outro lado, não se cansam de publicar depoimentos de um número cada vez maior de mulheres que confessam, sem qualquer constrangimento ou culpa, que traem porque se descobriram traídas, algumas já na lua de mel. Outras, se dizem infelizes no casamento, mas nele se agarram por razões econômicas. o que as impediria de partir para a separação. Mas nem por isso, abrem mão de alguns momentos de prazer e momentos agradáveis, ainda que por alguns minutos ou horas. Não importa.

Esses novos tempos não são mais privilégio de uma casta social elevada, como antigamente. Mesmo a mulher de classe média e de baixa renda de um país tão culturalmente complexo como o Brasil, sabe hoje o que merece e luta por esse reconhecimento, cada uma à sua maneira. Mas há, nesse mesmo universo, aquelas que, aparentemente, continuam vivenciando o papel de meras coadjuvantes no casamento, até por vingança. Suportam o insuportável para “não aliviar ” o seu homem do inevitável sentimento de culpa, tirando delas o ainda que amargo sabor da revanche. Não me parece o melhor caminho em busca da liberdade consciente e responsável. Estas, continuam prisioneiras de si mesmas.

O presente é o tempo que temos para viver. A vida é feita de atitudes e elas não podem ser apenas reativas. O que somos hoje, o que sentimos, o que fazemos ou deixamos de fazer, o que nos fazem ou deixamos que nos façam são resultado de nossas próprias escolhas, para o bem ou para o mal. O outro só nos é revelado com a convivência, quando as máscaras sociais e culturais perdem a sustentabilidade. E todos nós as temos. Isso não quer dizer que devemos conservar fechados a sete chaves, por falta de atitudes, os nossos próprios baús internos. Afinal, o que está lá dentro, nós mesmos colocamos. Mas é preciso abri-lo, tirar dele o que já não presta, jogar fora o que está bolorento e só deixar o que pode nos fazer felizes. Não é fácil, mas também não é impossível.

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Mulher, Poder e Solidão

28 de December de 2009 por Magda de Almeida

 

Muito se fala na mídia sobre o sucesso da mulher moderna no mundo empresarial, num tom sempre glamuroso. As entrevistas são de causar inveja às menos dotadas na carreira que escolheram ou que nela seguem por falta de outra opção. Dá gosto ver as matérias e as fotos de conhecidas e bem nascidas figuras femininas do nosso mundo corporativo. Maquiadíssimas, produzidíssimas, jeito de bem com a vida, um sucesso absoluto em casa e na rua. Ah! se a casa falasse…certamente faria coro com a economista Sylvia Ann Hewlet, da Universidade de Harvard, responsável por uma pesquisas feita nos Estados Unidos sobre a verdade em torno desse sucesso. Sylvia entrevistou 5 mil mulheres em cargos de chefia, entre 28 e 55 anos. A pesquisa virou livro ( Creating a Life, ainda sem tradução no Brasil ) e garante: mulheres bem sucedidas profissionalmente têm cada vez menos chance de viver um grande amor. E isso parece valer para qualquer uma, viva ou não em países desenvolvidos.

 

Mais seletivas, mais intelectualizadas e com menos tempo para as tarefas domésticas, a profissional bem sucedida é, na verdade, uma mulher muito só, com certeza menos por opção e mais pela imensa dificuldade em encontrar um parceiro à altura da sua educação e saberes. Quanto mais perto do topo da hierarquia, menores são as chances que ela encontra para uma vida comum, ou seja, casar, ter filhos, ir ao supermercado ou participar das reuniões no colégio dos filhos. Em geral, são mulheres poderosas, muito bem pagas, o que lhes garante uma vida de luxo, mas sem nenhum prazer afetivo. Apesar dos avanços femininos no mercado de trabalho, nos Estados Unidos ou no Brasil, a grande maioria das mulheres ainda sofre muito com a dificuldade de conciliar família e carreira. E não é pequeno o número de homens que não escondem suas dificuldades em conviver com mulheres viris, com vontade própria, sem tempo para eles, os filhos e os afazeres domésticos. A situação costuma piorar se ela é o maior salário da família.

 

Aqui no Brasil, pela primeira vez, um relatório do IBGE abordou essa relação entre o poder e a solidão da mulher brasileira. Na verdade, não diz nada diferente daquilo que o cotidiano revela: embora as mulheres continuem casando mais cedo, são os homens que seguram o casamento ao longo da vida, nem sempre por amor. Ninguém desconhece que divórcio é caro. Mas parece que a mulher é mais leal a si própria e enfrenta melhor o rebaixamento econômico do que o homem. Na faixa dos 70 anos ou mais, por exemplo, somente 27.9% delas vivem em união conjugal, contra 70.9% dos homens. Essa diferença levou a demógraf Elza Berquió a criar a expressão ” pirâmide da solidão feminina “. Dificilmente, os homens conseguem ficar sozinhos quando se separam ou enviúvam, mas para  as mulheres, é cada vez mais complicado encontrar um parceiro a partir dos 50 anos. Além disso, os  homens têm mais escolhas. Eles olham para baixo da pirâmide etária, enquanto as mulheres olham para cima. Em nossa cultura, um homem de 40 anos escolhe mulheres da mesma idade ou, preferencialmente, mais novas. Já a mulher com mais de 50 seleciona homens da mesma idade ou mais velhos.

 

O problema para ela é que os mais velhos estão casados, com filhos, netos, família estruturada. Feliz ou não, está conformado e acomodado à vida que construiu. Na chamada meia idade ou velhice, eles não costumam abrir espaço para uma outra relação estável, optando apenas por aventuras passageiras, sem qualquer compromisso de longo prazo. E tem a sociedade a seu favor. Mas não é isso que a mulher que trabalha e tem liberdade de escolha almeja para si, esteja  solteira, divorciada ou viúva. Ela não quer aventuras nem relações passageiras, muito menos clandestinas, conflituosas. Diante dessa realidade e, como não depende economicamente de ninguém, essa nova mulher prefere continuar só a partir para uma aventura onde não rolam sentimentos - constata a demógrafa.

 

A pesquisa de Sylvia Hewlet revela um dado ainda mais interessante. Passando os olhos pela lista das vítimas dos atentados ao World Trade Center, em Nova Iorque, ela descobriu que a grande maioria das mulheres que morreram naquele atentado… era solteira. Deixaram apenas sobrinhos e  amigos. Ao contrário dos homens, que deixaram viúvas e filhos. ” Atualmente, 60% dos cargos executivos em empresas americanas - diz  em seu livro - são ocupados por mulheres. Mas somente 11% tornam-se as principais executivas das empresas. Mesmo tendo alcançado cargos de chefia, mais da metade delas não almejam chegar à presidência. Sabem que este é um cargo difícil pelas suas múltiplas e nem sempre tranquilas responsabilidades, principalmente para uma mulher com marido e filhos.”

 

Hewlet cita em seu trabalho as todo-poderosas Jessye Norman ( cantora lírica ) e a ex-assessoria de Segurança Nacional da Casa Branca, Condoleeza Rice, como exemplos de mulheres solteiras de sucesso, sem filhos, que nunca esconderam suas dificuldades em encontrar companheiros que entendessem a devoção delas às suas carreiras. Conciliar ascensão profissional e maternidade é uma tarefa que, também, se torna ainda mais difícil por uma questão biológica. Muitas mulheres planejam ter filhos depois dos 30. Premidas pelas responsabilidades profissionais, adiam esse momento, estendendo-o para ” mais adiante “. Acaba chegando aos 40 e aí percebem que os riscos são grandes. O próprio IBGE afirma que é cada vez maior, no Brasil, o número de mulheres solteiras, independentes, que assim querem ficar por opção. Não pretendem perder o que conquistaram através do casamento, onde as regras do jogo ainda exigem muitas concessões por parte da mulher.

 

Mas a solidão, garantem os psiquiatras e sociólogos debruçados sobre essa questão, faz mal à saúde. E não é só a mulher a sua maior vítima. O homem moderno anda hoje acuado, assustado, com essa mulher viril, autosuficiente, que toma a iniciativa,  o dispensa como provedor, embora o deseje…mas apenas como amante. Nã conseguem entender ( e aceitar ) essa nova mulher que não esconde mais suas emoções, fala abertamente sobre  sua sexualidade e mostra desejos mais libertinos. Sentem-se ” homens-objeto “. Na Europa Ocidental, nos Estados Unidos e no Canadá, os homens percebem que, ao longo dos últimos 20 anos, foram ” empurrados “ para uma condição de falência como filhos, maridos, pais e amantes. A principal  causa, insistem os estudos, é a ascensão econômica, social e política das mulheres, que estariam impondo, na prática, uma grande pressão sobre seus parceiros, deles cobrando um desempenho excelente em todos os campos da vida cotidiana, ao mesmo  tempo em que exigem ( deles ) mais afetividade e sensibilidade no trato com elas. Não é de estranhar, portanto, que os consultórios, pelo menos no mundo ocidental, estejam lotados de homens subjugados por uma abissal baixa-estima, desvalorizados por suas próprias mulheres e namoradas e incapazes de entender e atender as atuais expectativas femininas.

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Medicina e Violência Urbana: entre o bisturi e o fuzil

24 de November de 2009 por Magda de Almeida

Armas pesadas, ferimentos de alta gravidade, atendimento de grande complexidade, sobrevivência praticamente impossível: esta é a realidade, hoje, nos hospitais de emergência das capitais mais violentas do país. Sem preparo acadêmico suficiente e eficiente para um tipo de atendimento que exige, de médicos e enfermeiros, treinamento muito além do convencional, e  sem poder contar com o indispensável apoio governamental para essa capacitação, os profissionais estão bancando, sozinhos, os poucos e caros cursos existentes no Brasil e no exterior. Sem direito a reembolso. Os fuzis AR-15 e AK-47, as pistolas de repetição e de alta velocidade, as granadas de grande poder de destruição, apenas para citar alguns armamentos, estão alterando as estruturas tradicionais das emergências hospitalares, forçando médicos e profissionais de saúde que atuam nas emergências a correr atrás desse treinamento, que faz a grande diferença entre viver e morrer.
 
Essa preocupação não é recente, mas hoje atinge níveis nunca antes alcançados devido ao agravamento da violência urbana em todo o país. Em 2001, só para citar um exemplo, o Cremerj ( Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro ) já sinalizava seu temor diante do impacto dessa dura realidade social e acadêmica. Em uma inédita pesquisa sobre o perfil do profissional que trabalha nas emergências das  unidades públicas do Rio ( federais, estaduais e municipais ), o Conselho constatou a existência de um número, acima do razoável, de médicos e enfermeiros sem especialização em politraumatizados, sem condições financeiras e tempo para a necessária reciclagem, e muito frustrados diante dos salários baixíssimos e das jornadas de trabalho desumanas. Tudo isso, em contrapartida a uma cidade com suas zonas de guerra e bandidos equipados com o que há de mais sofisticado em armamento pesado, como lança-mísseis e fuzis de última geração.
 
Na década de 90, Israel era o país que mais recebia médicos do mundo inteiro para reciclagem e treinamento em ferimentos por armas de guerra. E não era por acaso, já que, ali, estava também o maior centro mundial de especialização em medicina de guerra, portanto, um grande campo de treinameto. Não faltavam pacientes. Se até então a preocupação era com as vítimas do terrorismo, no final dessa década as atenções do mundo começaram a se voltar para o agravamento da violência urbana, principalmente nas capitais latino-americanas. O narcotráfico era o vilão da vez. Dessas capitais, corriam para Israel seus melhores cirurgiões, iniciando uma grande revoada de especialistas em busca de treinamento e aprendizado mais de acordo com esses novos tempos. O país líder dessa corrida era, então, a Colombia. Hoje, o Brasil lidera, com o Rio à frente, em função do aumento extraordinário de vítimas ” civis ” dessa guerra ainda não oficialmente declarada.
 
Não é incomum ver-se nos hospitais cariocas a vítima chegar na maca com o bombeiro ao lado segurando sua perna ou seu braço. Um tiro de fuzil, quando não mata, mutila. É a arma mais usada nas favelas, mas que já faz parte do arsenal usado nas principais vias de acesso ao Rio, muitas vezes em mãos de crianças e adolescentes que sabem usá-la tão bem quanto um veterano das guerras no Oriente Médio. Enquanto lá, os médicos podem contar, mesmo no deserto, com uma tecnologia de ponta levada pelos americanos, na guerra urbana brasileira a diferença entre morrer e viver depende, quase que exclusivamente, do talento e do esforço pessoais dos profissionais mais abnegados, embora a grande maioria dos feridos já cheguem nas emergências com poucas chances têm de sobreviver.
 
Numa guerra convencional, é possivel saber onde está o limite da fronteira, onde cada lado se posiciona, a hora em que é possível atravessá-la e até o momento em que as bombas vão cair.  É só conhecer os códigos. Na atual realidade de cidades como o Rio de Janeiro, é impossível para a população saber quando, onde e a que horas o tiroteio vai começar de fato. Isso é um privilégio de poucos. A realidade dos hospitais cariocas chegou a tal ponto que alguns contam, hoje, com a ajuda dos funcionários que moram nas favelas. Conhecedores das manhas e artimanhas do tráfico, eles conseguem manter os plantonistas informados sobre o clima nos morros, o que leva as emergências a preparar o espírito, os procedimentos  e os medicamentos para o que virá a seguir.
 
Hoje diretor-geral de um dos mais modernos hospitais cariocas, o cirurgião toráxico, Rodrigo Gavina, é um jovem veterano nas emergências de hospitais públicos e da Polícia Militar, além de pioneiro no atendimento e tratamento de vítimas de armas pesadas. É um exemplo de esforço pessoal em busca da qualidade de atendimento emergencial à população, diante do crescimento da violência urbana. Há cerca de 20 anos, ele e sua equipe ficavam atônitos diante do poder de destruição do corpo humano que chegava nas emergências. Eram as vítimas dos fuzis que, então, desembarcavam nos morros. O índice de morte era de 100%, tanto de policiais quanto de bandidos, e as balas que os vitimavam eram as mesmas usadas nas guerras do Vietnã e do Golfo. Essa constatação foi o ponta-pé inicial em busca de um aprendizado mais qualificado para esse novo momento que os hospitais viviam e Israel, a fonte desse conhecimento. Mais tarde descobriria que a Colombia, também, era uma grande escola, até porque tinha uma realidade mais próxima da nossa. E não parou mais. Passou anos debruçado sobre tratados de balística, que só encontrava em inglês, e livros escritos por médicos que atuavam em guerras.
 
Suas pesquisas redundaram numa outra descoberta: a contaminação. A velocidade e os movimentos das balas dentro do corpo humano criam um vácuo que puxa para dentro do ferimento pedaços de roupa e até a poeira do ambiente. Nada que se pareça com o que faziam os tiros dos velhos 38 e 45. Portanto, as cirurgias e os procedimentos que se seguiam a elas deveriam incluir, também, uma vasta área em torno desses ferimentos. A maior possível, porque a cavidade formada por tiro de fuzil é 30 ou até  50 vezes maior que uma bala comum. Por isso, é preciso examinar o corpo inteiro dessa vítima, e não apenas a região onde a lesão maior é visível. Um novo protocolo de atendimento surgia. Gavina e sua equipe perdiam a conta das vidas que conseguiam salvar na mesa de cirurgia. Trauma é a medicina do século, ele está convencido. O que aprendeu em Israel, na Colombia e nos hospitais cariocas é que, para salvar e tratar as vítimas da violência urbana, não é preciso uma tecnologia sofisticada nem verbas proibitivas, mas equipes bem treinadas, equipadas e rápidas.

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O homem e o câncer de mama

10 de November de 2009 por Magda de Almeida

 

Está aumentando em todo o mundo o número de homens com diagnóstico de câncer de mama. Estudos realizados pela Universidade do Texas, nos Estados Unidos atestam o que pesquisas anteriores já sinalizavam: o alto consumo de gordura, de carne vermelha  e o uso excessivo de hormônios para aumentar a potência sexual e corrigir os rumos do sexo original estariam tornando o homem mais vulnerável ao câncer masculino, considerado  raro até bem pouco tempo. O maior número de casos, por enquanto, se concentra na Ásia, mas as causas ainda não estão muito claras e é sobre elas que cientistas do mundo inteiro vem se debruçando nos últimos anos. No Brasil, o Pará chegou a registrar o maior índice da doença em homens em toda a América Latina, mas São Paulo e o Rio Grande do Sul estão, agora, na dianteira. Na América Central, a doença é quase inexistente. A pesquisa também constatou que o câncer de mama masculino vem sendo diagnosticado muito mais tarde que nas mulheres - mais ou menos aos 67 anos, contra 60. Como ocorre em escala mundial, os homens só procuram o médico quando a doença já está em estágio muito avançado. Os especialistas perceberam, ainda, que, apesar de o câncer nos homens ser de mais fácil detecção do que na mulher , nem eles nem suas famílias se dão conta que aquela massa modular crescendo e já visível a olho nu, exige mais atenção.

Um outro estudo, este realizado pela Universidade de Washington, entre 1983 e 1987,  em 227 homens com diagnóstico de câncer de mama, apontou um grau elevado de risco para aqueles que trabalham em áreas expostas a ondas eletromagnéticas, como os profissionais de empresas de eletricidade, telefônicas, rádio e telecomunicações. O risco torna-se maior se essa exposição prolongada ocorre antes dos 30 anos. 

Coordenador da pesquisa, o mastologista Sharon Giordano disse ter ficado impressionado com os seus resultados. Muitas dúvidas ainda persistem, mas ele hoje já tem, também, muitas certezas. Hábitos alimentares equivocados, hormônios em quantidade acima do necessário, estilo de vida e meio-ambiente parecem ser os maiores vilões. Embora esse tipo de câncer represente, por enquanto, apenas 0.6% de todos outros tipos conhecidos, esses novos dados já são suficientes para levar a comunidade científica e alguns governos a dar mais atenção à doença e a pensar em  campanhas de prevenção voltadas, também, para o público masculino, como já é feito mundialmente com o câncer de próstata e de pulmão.

Já há um consenso que esse movimento e atenção devem começar já na adolescência e isso vale para os médicos também. Ou seja, o profissional de saúde deve fazer com os homens o que os ginecologistas devem fazer com as mulheres: incluir o exame de mama nos procedimentos clínicos. No Brasil, o câncer de mama em homens ainda é muito pouco estudado, mesmo nas faculdades de medicina, e ainda causa um grande impacto no paciente e em sua família, justamente pelo preconceito e falta de informação que cercam a doença quando ela atinge o sexo masculino. É muito comum a crença que esta é uma uma doença que ” só dá em homem que quer virar mulher “. Desinformado e temeroso, o homem esconde os primeiros sintomas, só procurando socorro médico quando a cura torna-se mais difícil. As raras estatísticas brasileiras conhecidas revelam muito pouco sobre o perfil do homem que desenvolve a doença, o que dá margem para todas essas interpretações equivocadas. Mas há uma cerca coincidência entre o surgimento do câncer de mama em homens que, também, se submeteram a uma intensa terapia hormonal para controle de um câncer de próstata. Transsexuais que receberam altíssimas doses de estrotênio para se feminilizar também estariam no grupo de risco.

A última pesquisa que se tem notícia sobre o tema, no Brasil,  foi realizada em 2001 pelo Ministério da Saúde. Segundo o levantamento, 1996 foi o ano em que ocorreu no país o maior número de óbitos em homens vítimas de câncer de mama. Esse número não aumentou em 1997 e 1998, mas também não diminuiu. Em 1997, a Ásia era o Continente que agrupava as mais altas taxas de mortalidade nesse tipo de cãncer, seguido da América do Norte, Africa, Europa, Oceania e América do Sul, nessa ordem. Apesar de ainda ser considerada uma doença rara, o câncer de mama masculino vem despertando o interesse da comunidade científica internacional. O mesmo não se pode dizer do Brasil, em particular, e da América Latina em geral, onde o tema sequer é discutido com mais amplitude, mesmo entre os profissionais da área.

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A solidão dos que viveram muito

6 de August de 2008 por Magda de Almeida

solidao.jpg Discursa-se muito no Brasil, principalmente dentro dos gabinetes, sobre a necessidade de novas políticas públicas de atendimento ao idoso. Da mídia partem palavras de ordem determinando que o idoso torne-se mais ativo, faça mais exercícios, alimente-se menos e com mais qualidade, enfim, invista em sua saúde, a fim de manter-se saudável para um viver mais prazeroso. É recorrente o noticiário sobre os benefícios que o Viagra e similares vêm fazendo no campo da sexualidade, embora o desejo passe longe da propaganda. Mas, para que idoso estarão os políticos, os especialistas e a mídia dirigindo o seu discurso? Em que cidade brasileira habitaria o idoso que pode alimentar-se com qualidade, pagar academias de ginástica, comprar com regularidade as caixas do Viagra ou simplesmente sair tranquilamente pelas ruas do Rio, sem o risco de morrer vítima de uma bala perdida ou cair nos muitos buracos que transformam as ruas da Cidade em mortais crateras a céu aberto?

O médico carioca Alexandre Kalache, doutor em saúde pública pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, também coordenador do Programa de Envelhecimento e Saúde da Organização Mundial de Saúde, faz estas e muitas outras perguntas. Por conhecer muito bem o assunto, o que é um simples discurso de gabinete e o que é ação efetiva principalmente a diferença entre as duas, é que ele não tem mais dúvida: qualquer projeto de amparo aos idosos só dará certo se envolver múltiplos setores, for realmente levado a sério, tiver continuidade, passar ao largo da política rasteira e, tão importante quanto, sensibilizar a população como um todo.

“Os cuidados para com o idoso não podem se transformar numa iniciativa isolada, como vem ocorrendo no Brasil. Todos precisam sensibilizar-se para esta seríssima questão, inclusive os políticos. Não adianta convencer as pessoas de que ser sedentário é perigoso, se perigo maior elas correm numa cidade violenta, com
iluminação precária que as impede de sair à noite e com um péssimo serviço de transporte público, que limita o deslocamento e ainda humilha. Não dá mais para pegar uma bicicleta e sair por aí, porque o trânsito te mata. Se não for o trânsito, é uma bala perdida ou a poluição descontrolada. Então, é preciso pensar num esforço multisetorial para que as políticas sejam adequadas a esse conjunto. O que nós temos de fazer, além de evitar ao máximo que as pessoas atinjam cedo o limiar de sua capacidade, é pensar naqueles que já a perderam.”

Como médico há décadas lidando com o processo humano de envelhecimento, Kalache está convicto que é perfeitamente possível restaurar a capacidade perdida. A medicina avançou bastante neste campo. Para ele, tão grave quanto a apregoada, mas nem sempre verdadeira, falta de recursos para atender às demandas da terceira idade, é o preconceito contra o idoso, comum em todas as sociedades ocidentais, embora mais acentuado, até por uma questão cultural, na América Latina. “Vejam só a condição dos idosos, por exemplo, nas cidades onde o poder público se ausenta nos aspectos mais primários. Eles não podem sair de casa à tarde, porque têm medo de cair num buraco da calçada. Ficam ilhados e não andam. Sem andar, a capacidade física se deteriora, seu círculo social se estreita. Adoece e, mesmo tendo família, sua doença acaba impactando na vida de todo mundo. Tudo isso piora imensamente sua qualidade de vida. Não porque ele tenha problemas, mas porque o meio ambiente à sua volta não lhe permite usar a capacidade funcional que ainda possui para continuar ativo na sociedade.”

Kalache e sua equipe vêm desenvolvendo um novo conceito chamado de “envelhecimento ativo”. É o pensar o envelhecimento como uma perspectiva de curso de vida, mexendo nos determinantes de saúde para garantir que a maioria da população chegue bem à terceira idade.
Esse determinante pode ser o serviço de saúde, mas também pode ser a questão econômica. Pode ser a nutrição, a ordem social. Esse conceito também vem combater a exclusão social do idoso, que tem uma grande contribuição na deterioração (desnecessária) dele. Estatísticas recentes afirmam que aumenta cada vez mais, no Brasil, o número de aposentados que provêm seu próprio sustento e ainda mantêm seus filhos e netos desempregados.

A USP, em parceria com a Organização Pan Americana de Saúde e o apoio da Fapesp, por exemplo, acabam de traçar o perfil do idoso que mora no município de São Paulo, o que equivale, hoje, a 9.3% da população da capital. Foram entrevistados 2.143 idosos. O estudo, denominado Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento, constatou que 87% desse universo vive de alguma maneira acompanhada, o que não se traduz, necessariamente, em acompanhamento e felicidade. São mais de 100 mil seres humanos que têm dependências básicas diárias, mas ninguém para ajudá-los.

Analisando essa solidão compulsória e suas conseqüências numa cidade grande, a coordenadora do estudo, socióloga Maria Lúcia Lebrão, lembra que esse isolamento envolve, também, uma questão profundamente cultural. A família ocidental se fragmentou. Hoje, todos trabalham ou estudam, quando não fazem as duas coisas, portanto, muitas vezes só vão em casa para dormir. Não há mais ninguém para cuidar do pai ou do avô. Omissos ao longo de todos esses anos, os governos nunca cuidaram para evitar o que se imagina vá ocorrer em poucos anos no país, que envelhece a olhos vistos: milhares de homens e mulheres, sós e com as doenças incapacitantes próprias da idade, dependendo cada vez mais da caridade pública ou privada.

A idade média dos idosos hoje em São Paulo é de 70 anos. A grande maioria é formada por mulheres, embora isso não queira dizer que vá ser assim daqui a 20 anos. Desse universo pesquisado, apenas 9.7% recorre às farmácias do SUS. O restante se autosustenta e, não raro, ainda banca a sobrevivência dos parentes, um fenômeno cada vez maior no Brasil em razão da grande massa de desempregados. A preocupação da OPAS em estudar o envelhecimento tem uma razão bastante clara: nos próximos 20 anos, o número de pessoas com mais de 65 anos na América Latina vai praticamente dobrar, passando de 42 milhões hoje, para 82 milhões depois de 2020. No Brasil serão mais de 30 milhões - 13% da população. Esse estudo da USP traz uma importante contribuição para se entender melhor essa questão, porque, até então, a tendência era buscar dados levantados fora do país e usá-los aqui, quando se sabe que diferenças culturais, sociais e econômicas entre nações fazem uma grande diferença quando se buscam resultados reais.

Outro aspecto, que surge com a pesquisa da USP, é a
familiar. Viver com a família é diferente do que viver em família, onde se pressupõe o respeito, o afeto, a acolhida. A vida moderna tornou o idoso um peso na já carregada estrutura familiar ocidental, onde se privilegia a juventude, a ação, o vigor, em detrimento do pensamento, das idéias, do saber acumulado. O problema se agrava quando este idoso torna-se incapaz em função de alguma doença, um AVC por exemplo. Nem governo nem famílias estão preparados para este impacto. As famílias, sequer emocional e materialmente. Os personagens vividos na série A Grande Família e na novela Mulheres Apaixonadas, por mais que seus autores pretendam retratar a realidade brasileira, ainda estão longe de traduzi-la. Neles, as figuras idosas de alguma maneira estão amparadas, seja pelo personagem de Marieta Severo, que não trabalha e pode ficar em casa tomando conta do pai, ou pelo personagem de Paulo Caruso, o único da família que produz renda. O casal de idosos tem para cuidá-los a nora e a empregada. Coisa rara no Brasil real.

O que impediria o Brasil de chegar ao menos perto do nível de vida oferecido aos seus idosos pela Europa, por exemplo, para não citar as nações escandinavas? O modelo econômico, para Kalache, é um grande entrave. Mas não é também pequeno o preconceito, principalmente entre os países ricos. “Eles têm dinheiro para dar, mas não priorizam a questão do idoso. Observem como a mídia trata o idoso, como as campanhas de marketing sempre priorizam a imagem do jovem. Nossa sociedade não tem paciência com a diminuição da agilidade. O idoso é, naturalmente, mais vagaroso, o que não quer dizer que seja menos competente, apenas ele desempenha as suas funções dentro do seu próprio tempo. Mas a sociedade moderna quer rapidez, embora seja perfeitamente possível compensá-la com a experiência acumulada.

E nos países pobres? Para Kalache, a questão aqui é, também, a falta de sensibilidade da sociedade, em todos os seus segmentos, daí a necessidade de um esforço coletivo correndo paralelo às políticas públicas. O mundo está envelhecendo, particularmente o terceiro mundo. Ocorre aqui um fenômeno curioso. A História da humanidade não registrava o fato de um país ser pobre e estar envelhecendo. Os países desenvolvidos primeiro ficavam ricos e depois envelheciam. Hoje, as nações em desenvolvimento estão envelhecendo, antes de ficarem ricas. Isso faz uma grande diferença no resultado final que, se não for devidamente pensado e planejado, não tem nada para ser feliz.

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